05 maio 2024

Quebrantado - autoria de João Bezerra de Santana

Tenho certeza que em breve

Eu irei morrer

Mas não se lamente, não chore

Não sou mais quem você viu nascer

Posso ter sido um ser bom

Mas já não sou mais esse ser

Não sou mais quem eu era

Só o que desejo hoje é morrer.


Todos irão chorar, eu sei

Mas não vou mais estar aqui para ver

As atrocidades que cometem os homens

Pelo menos não irei mais sofrer

Pois infelizmente a situação é tal

Que não consigo mais viver

Neste mundo vil e demoníaco

Sem buscar algo pra me entorpecer


Se continuar vivo, eu serei

Para todos um perigo

Não sou mais um bom filho

Não sou mais um bom amigo

Não sei mais conversar

De todos eu me intrigo


Por isso, Deus, se existes,

Eu te peço que me deixe perecer

Não irei me matar

Mas morro como lhe apetecer

Peço só piedade para minha alma

Que veio a este mundo só para sofrer

Para causar dor a quem ama

E para quem odeia dar prazer.


Senhor dos Exércitos, Pai Celestial,

Yaweh, meu Soberano Universal,

Leia esses versos como oração

Por favor, alivia minha opressão

Sei que fazes o que quiseres comigo

Mas viver assim não mais consigo.



01 maio 2024

Noites com uma Carcará

 

Soube eu de uma história

De um certo sitiante

Que morava, sozinho

Num sítio isolado e distante

Sofrendo muito com o peso

De um evento importante

 

Viúvo fazia dois meses

E em profunda depressão

Vivendo triste, solitário,

Resolveu tomar uma ação

“Vou começar a criar bichos

Para ter paz no coração”

 

Construiu um galinheiro

Começando a criar pintinhos

Que andavam pelo terreiro

Porém, sempre sozinhos

Catavam seu alimento

Entre as flores e espinhos

 

Contudo, surgiu um problema

Todo dia um pinto sumia

Porque, descendo do céu

Uma carcará surgia

A criação do pobre fazendeiro

A cada dia diminuía.

O sitiante, revoltado

Quando a situação percebeu

Pegou a arma de seu avô

Vários tiros na ave deu

Mas nada disso funcionou

A carcará não morreu

 

Não desistiu por aí

E resolveu observar

Ficava o dia todo de tocaia

Esperando o pássaro chegar

Para descobrir então

A morada do carcará

 

Era tão chato ficar escondido

Que já estava lhe enchendo o saco

Porque, como dono de sítio,

O seu tempo era parco

Mas um dia descobriu:

Morava no topo d’um pau d’arco.

 

Resolveu então subir

Para o pássaro matar

“Se ela não estiver no ninho

Seus ovos vou esmagar

Ou se tiver filhotes,

Todos eles vou roubar

Pois acabou com minha criação

E tenho eu que me vingar!

 

Subiu com dificuldade

E quase caiu no chão

Encontrou no ninho apenas

Filhotes feios como o cão

Colocou os três numa bolsa

Porém, sem nenhuma agressão

O que iria fazer com eles?

Restava essa decisão.

 

Chegando em casa então

Procurou em seus quartinhos

Um espaço para colocar

Os coitados dos bichinhos

Trancou-lhes lá dentro

Deixando todos sozinhos

 

O fazendeiro, desde viúvo,

Toda noite não dormia

Porém naquela noite

Algo diferente aconteceria

Pois uma estranha visita

Em sua casa receberia

 

Ouviu um batido na porta

Parecia um pássaro a bicar

Quando abriu, se deparou

Com a grande mãe Carcará


Que estranhamente falava

E não parava de reclamar

Dizia que os seus filhotes

Tinha vindo buscar.

 

O fazendeiro, assombrado

Não acreditava no que via

O seu coração acelerava

Muito rápido batia

Pois aquilo em sua frente

Parecia bruxaria

 

Tomou coragem e perguntou:

Senhora, qual o seu nome?

Ela disse: “nós não temos

Essa vaidade que tem os home

Pois a gente nasce num dia

E no outro logo some”.

 

O fazendeiro a acusou

De seus pintos matar

Mas ela justificou

Que precisava se alimentar

Aquela era sua natureza

E não tinha como mudar

Porém, a atitude dele

Foi só para se vingar

Por isso mesmo ela disse

“Vim meus filhotes buscar”.

 

- Pare logo com essa história

A senhora não me provoca

Eu só devolvo teus filhotes

Se me oferecer algo em troca

Pois não vai sair impune

Não pense que sou bococa.

 

Ela disse: “sei que você

À noite não consegue dormir

Porém, posso lhe contar histórias

Para no sono então cair

Sei eu de muitas lendas

E não vou lhe mentir

O senhor devolve meus filhotes

E depois da história vou sumir.”

 

O sitiante disse:

“A senhora é muito esperta

Mas a mim não apetece

Aceitar essa tua oferta

Vamos fazer um acordo

Para deixar a coisa mais certa.”

 

A proposta que tinha em mente

Começou então a falar:

“Já que eu roubei três filhotes

Então três noites aqui virá

Lhe devolverei um por um

E três histórias você vai contar

Só assim é que você

Daqui com eles pode voar.”

 

Ela ficou irritada

Porém, não quis brigar

Se fosse lutar contra ele

Provavelmente iria apanhar

Podia morrer d’uma surra

E suas crias ficariam lá

Esse era então o único jeito

De seus filhos recuperar

Pediu então ao sitiante

Licença para poder entrar.

 

Mesmo estando desconfiada,

Começou então a carcará

Disse: “meu caro amigo

Agora eu vou lhe contar

A história de um homem rico

Que a Deus foi desafiar

Se achava tão poderoso

Mas foi só pra se lascar”

 

Existiu um ateu

Na então Vila de Arês

Dono de um grande engenho

Dos maiores, um dos seis

Dos tipos que acreditavam

Que podiam mandar como reis.

 

 

Vendo sua lavoura bem crescida,

Disse: não tem como isso dar ruim

Vu enriquecer ainda mais

Que nem Deus tira isso de mim!

Falta pouco para a colheita

E vai ser dinheiro sem fim.

 

Animado como estava,

Resolveu então viajar

Para as vilas limítrofes,

Procurando negociar

Disse pr’o seu gerente:

Só venda quando eu voltar

Pois se você vender antes

Na volta vou lhe açoitar.

 

Subiu então em seu cavalo

E saiu ligeiro, animado

Porém, passados dois dias

Voltou para lá o danado

Mas só que não era ele

E sim o Cão fantasiado

 

Procurou logo o gerente, dizendo:

Meu senhor, não consegui trato.

Para comprar bem essa lavoura,

Não encontrei nenhum candidato.

Então o jeito que “nóis” tem

É vender tudo barato.

 

Disse o gerente: meu senhor

Tudo bem, eu não discuto

Mas, isso é uma loucura

Há muito tempo que eu labuto

Se não vender isso bem,

Não pagamos nem “os tributo”

 

De supetão veio a resposta:

“Cale a boca seu matuto

Você não conhece minha natureza

Pois sou um ser muito bruto

E se você desobedecer

Pego seu braço e amputo.

 

E eu não quero mais conversa!

Pode vender abaixo do preço

Vou viajar pra Nova Cruz

E desta plantação me esqueço

Vou visitar alguns conhecidos

Que por lá eu também conheço”

 

E a lavoura foi vendida:

Só prejuízo para a fazenda.

Não davam nem pra pagar

Pr’os escravos a merenda

Venderam tudo tão barato, que

Até hoje não tem quem entenda.

 

Mas o verdadeiro fazendeiro

Tinha era bem negociado

Vendeu pr’um cabra de Goianinha

E estava muito empolgado

Pois o negócio tinha sido bom

E já estava tudo firmado.

 

Selou o seu velho cavalo,

E voltou muito contente

Chegando em sua fazenda

Disse logo pro seu gerente:

“Fiz um negócio tão bom

Que serei ainda mais imponente!”

 

Disse o gerente: “meu senhor

Tu perdeste foi o juízo

Eu não entendo como pode ser bom

Receber tanto prejuízo

O sinhô voltou aqui faz uns dias

Mandando ignorar aquele aviso

E se continuar desse jeito

O senhor acaba é liso!

 

E vendo que seu patrão

Não estava entendendo

Disse “é que o senhor voltou aqui

Como quem tava enlouquecendo

E disse pra vender tudo logo

A preço de banana acabei vendendo.

 

Se lembrando da sua blasfêmia,

Disse o fazendeito assustado:

“Jesus Cristo! Por que de ti fui zombar?

Gastei tanto com essa lavoura

Só pra ver tudo se acabar!”

Ali teve um ataque cardíaco

E no inferno foi morar.

 

Terminando a história,

O fazendeiro estando dormindo

A carcará pegou seu filho

E foi pela porta saindo

Mas a saudade dos outros

Ainda estava lhe afligindo

 

Chegada a noite seguinte,

Voltou ali a carcará

Chegando, na rede estava

O sitiante a esperar

Ela então abriu o bico

E começou logo a contar:

 

“Morava daqui distante

Um homem chamado Joaquim

Que em sua vila tinha fama

De ser um cabra muito ruim

Não respeitava nenhum ser vivo

E dava até tiro em soim

 

Todos os daquela vila

Mantinham a tradição

Iam sempre à missa

Como ditava a religião

Mas Joaquim não acreditava

Em nenhuma forma de salvação.

 

Nesse tempo foi anunciada

Na Vila, uma grande visita

Frei Damião é que viria

Prepararam então festa bonita

Joaquim não participou

Nessas coisas não acredita

 

O frade lá chegando

Foi logo marcando uma missa

Para a qual compareceriam

Toda alma de fé submissa

Pois para eles aquilo era

Para a salvação uma premissa

 

Dois homens então resolveram

Para a missa, Joaquim convidar

Não podiam ter pior ideia

Foram só para se espantar

 

“Joaquim nós aqui viemos

Somente para lhe chamar

Para ir até à missa

Frei Damião escutar”

Mas a resposta que receberam

Foi algo de escandalizar

“Pra quê vou sair daqui

Só pra ver um bode falar?”

 

Como era de se esperar,

Os homens se escandalizaram

Deram uns gritos em Joaquim

De toda forma o censuraram

Depois montaram em seus cavalos

E daquela casa vazaram

 

Sendo dois fofoqueiros

Não conseguiram se segurar

Chegando eles na vila

A Frei Damião foram avisar

Do herege que ali morava

E que acabara de “blasfemar”

 

O sacerdote aquilo escutando

Ficou triste e em aflição

Disse: “um homem assim

De fato, não é cristão”

E assim foi que o frade

Proferiu a maldição:

 

Disse: “este homem parece

Ser pior que Barrabás

Tu, que me chamaste de bode

Como bode morrerás

E até depois da morte

Um bode tu virarás!”

 

Frei Damião foi embora

E os anos foram passando

Joaquim andava com seu vício:

Todo dia muito fumando

Desenvolveu câncer no pulmão

E morreu como um bode, berrando

 

Um menino um dia andando,

Por onde antes morava Joaquim,

Ao passar em frente à casa

Sentiu uma energia muito ruim

E ouviu um barulho estranho

Vindo de uma moita de capim

 

Já foi ficando nervoso,

Piscou os olhos e quando abriu

Coitado do pobre menino

Que assombrou-se muito com o que viu

Pois no meio daquela estrada

Um bode enorme surgiu

Com um olhar esquisito

De um fulgurante azul anil

 

O garoto deu um grito

E o bode pra cima partiu

Mas o menino, sendo sabido,

Uma oração proferiu

“Valei-me Meu Jesus Cristo!”

E o malassombro sumiu.

 

Dizem que até hoje em dia

Evitam passar pela estrada

Principalmente se for

Pelas horas da madrugada

Pois desde aquele tempo

Ela é mal-assombrada

Pelo bode dos olhos azuis

Que ali tem sua morada


O ouvinte pegando no sono,

A ave, de falar, cansada

Pegou seu segundo filhote e saiu

Considerando-se liberada.

Sentia falta de suas crias

E não conseguia pensar em mais nada

 

Chegando a última noite

A mãe estando animada

Pela casa do fazendeiro

Chegou logo adiantada

Só faltava uma história

Para recuperar a ninhada

Porém, o fazendeiro

Com ar de desanimado

Pois com as histórias noturnas

Já estava acostumado

Com o fim dessa compainha

Estava muito inconformado

Aquela seria a última vez

Depois tudo acabado.

 

A ave disse: “a história de hoje

Não é história qualquer

Pois envolve amor e crime

Acerca de uma mulher

Se acomode bem aí

Pois atenção essa requer

 

Um homem chamado Francisco

O qual era paraibano

Muito bonito e elegante

E de estatura, mediano

Nascido em Mamanguape

E descendente de africano,

 

Para terras potiguares

Resolveu então se mudar

Em São José, conheceu Cecília

E se apaixonou ao primeiro olhar

No dia do casamento

A presenteou com um lindo colar

 

Se mudaram para o Comum

Lá, ele era respeitado

Por todos os moradores

Sempre foi querido e amado

Porém, com uma peixeira

Tinha o costume de sair armado

Pois tinha premonição

E era muito desconfiado

 

Era, em suma, um homem bom

Porém um dia foi andar

Pelos lados de Passagem

E no caminho foi encontrar

Vários homens armados

Que queriam lhe matar

 

Francisco, naquele tempo

Já possuía muita terra

E à algumas pessoas

Aquilo causava inveja

Foi então este o motivo

De toda a seguinte guerra:

 

O que podia Francisco,

Que nunca tinha brigado,

Com a sua peixeirinha

Contra um bando todo armado?

Pediu então piedade

Mas não foi escutado

 

Engatilharam as cartucheiras

Foi bala pra tudo que é lado

Quando acabaram a crueldade

Francisco no chão estirado

Levantaram então o corpo

Que estava todo furado

Entraram no terreno ao lado

E lá mesmo foi enterrado

 

Porém, não perceberam

A peixeira do lado caída

Que foi comprada em Juazeiro

Por todo mundo era conhecida

Quando amigos passaram por lá

Imaginaram a trama urdida

Pois aquela alma que amavam

Há muito desaparecida,

Tinha, com certeza, ali perdido a vida.

 

Cecília, nessa época

Já vivia enlutada

Não tinha quem a consolasse

Estava tão desolada

Assim como a terra de Francisco

Que estava abandonada.

 

Pouco tempo, ali chegando

Um forasteiro desconhecido

Muito bonito e educado

Porém era muito do sabido

Porque toda aquela trama

Era ele quem tinha urdido

 

Cecília, que neste tempo

Tinha o espírito abatido

Travou contato com este homem

Que era bem descontraído

Se apaixonou rapidamente

E arranjou novo marido

Coitada da pobre mulher!

Em que armadilha tinha caído!

 

A moça, já sem juízo

Apaixonada, logo casou

Ele, sendo cabra safado,

Uma oportunidade encontrou

E por essa imprudência

Essa pobre mulher pagou

 

Ele se chamava Manoel

Era da banda de Nova Cruz

Um pilantra como ele

Não respeitava nem Jesus

Sua alma era mais espinhosa

Do que os próprios mandacarus

 

A mulher era apaixonada

Para ele o coração abria

Enquanto no peito do covarde

Amor nenhum existia

Mas para não perder tudo

Um sentimento falso fingia.

 

E iam vivendo juntos,

Com os meses se passando

Enquanto isso a paciência

De Manoel ia se esgotando

Certo dia saiu de casa

E um veneno acabou comprando

 

Conhecia um tabelião

Que era outro salafrário

Era um vultoso especialista

Em fazer o povo de otário

Manoel explicou para ele

Como estava armado o cenário

 

Resolveram tudo logo:

Os documentos lavrados,

De Cecília e das terras,

Continham todos os dados.

E os papéis ainda estavam

Com os selos carimbados.

  

No outro dia Manoel disse:

“Mulher, hoje faço o almoço

Pois você vive ocupada

Trabalha e faz muito esforço

Além disso, o arroz de ontem

Tava era muito insosso”

 

Preparou caldo de peixe

Onde o veneno derramou

Cecília comeu satisfeita

Com o homem que a enganou

Achando que com esse “presente”

Amor ele finalmente demonstrou

Sem saber que seria morta

Pelo homem que tanto amou

 

Quando ela foi tirar um cochilo

O veneno então a matou

Manoel foi e agiu rápido

Com o dedo dela carimbou

Os documentos que seu amigo

Escreveu e também lavrou.

 

Depois disso mandou chamar

O padre de São José

O psicopata fingiu choro

O padre disse “Seu Mané,

Vocês se encontram no céu

Para isso basta ter fé.”

 

Depois do enterro e da missa

Manoel foi logo embora

Vendeu o colar que Cecília

Tinha ganho tempos outrora

Do homem que realmente a amou

Mas que não estava mais vivo agora.

 

Manel pegou o colar de pérolas

Vendeu na casa de seu Zé

Tudo a preço de banana

Gastando tudo no cabaré

Passou a noite c’uma quenga

Lhe fazendo cafuné.

 

Porém, ali vivia uma médium

Que os espíritos ouvia falar.

Certa noite ela escutou

A voz de Cecília a clamar

Dizendo: “Francisca, eu quero

De volta o meu colar

Manel tem que pegar ele

E na minha cova botar

Pois se isso não acontecer

Eu nunca irei repousar.

 

No outro dia, nas terras de Manel

Francisca foi logo chegando

Quando cruzou a porteira

O dono foi logo gritando:

“Saia daqui, véia doida!

Da sua cara não tô gostando”

 

Mas ela disse “Dona Cecília

Pediu de volta o colar

Para isso vim aqui

Para a você ordenar

Que vá até a cova dela

Para a joia lá deixar

Já não basta o tanto que tem,

Ainda mais quer roubar?

Se não cumprir essa ordem

O senhor há de pagar.”

 

Ele disse: a senhora é doida

Que nem aquela com quem casei

Vendi aquela porcaria de colar

Pois aquela mulher eu nunca amei

E no cabaré de dona Zefinha

O dinheiro todo gastei

 

Depois disso, toda noite

Um vulto Manel ali via

Era um moreno elegante, que

Os arredores da casa percorria

Manel se assustava com isso

E de noite não mais dormia

 

Ele não tinha mais paz

Em casa vivia assombrado

Pois vozes de noite ouvia

E ficava ainda mais aperreado,

Quando a voz do homem dizia:

“Devolva, seu cabra safado!”

 

Aperreado, resolveu ir

Ao comércio de seu Zé

Que era dono de vuco-vuco

Negociava até jacaré

Manel ia tentar recuperar

O que gastou no cabaré

 

Já tinha arranjado mais dinheiro,

Pois tinha vendido parte das terras

Quando no comércio chegou, disse:

Onde está? Aquele colar de pérolas?

Mas Zé tinha vendido todas as joias

Não tinha mais nenhuma daquelas

Manel então aperreou-se

“Vão aumentar minhas mazelas”

 

“-Pra quem o senhor vendeu?

Com quem fez essa barganha?

Seu Zé disse: pra um moreno

De estatuta mediana

Porém, aquele homem tinha

Uma aparência muito estranha

Disse que era de Mamanguape

E aqui faria uma façanha

Mas só o que posso dizer

É que nunca vi elegância tamanha

 

Manel ficou enfurecido

Voltou para casa arisco

Deitou-se na cama de noite

Quando começou um chuvisco

Morreu com um corte na garganta

Da peixeira do velho Francisco.

 

Assim como a de Cecília,

A alma de Francisco penava

Ele só teria descanso agora

Depois da joia recuperada

E de ter feito justiça:

Sua família fora vingada.

 

No dia seguinte foi o enterro

Daquele velho bandido

Ninguém por ele chorou

Pois a muitos tinha ofendido

E não se arrependia do que fez

Mesmo sendo repreendido.

 

No mesmo dia o coveiro

Foi na cova de outros finados

Por ali encontrou um colar

E um metal em que estavam gravados:

Os nomes “Cecília e Francisco”

“Eternamente ligados”.

 

Disse a carcará: “meu amigo

A história aqui acabou!”

Dessa vez ele não tinha dormido,

Ao contrário, ele clamou:

“Com a sua companhia

Você me acostumou”

 

“Eu lhe peço perdão

Pela maldade que lhe fiz

Tendo você para conversar

Eu me sinto mais feliz

Se você não voltar

Só terei noites febris.

  

O fazendeiro então clamou:

“Por favor, não me abandone

Porque se me deixar assim

Toda noite será insone

Por favor, nessa solidão triste

Novamente não me aprisione.”

 

Ouvindo isso, a sábia ave

Ficou muito comovida

Disse: “Farei o possível

Para melhorar a sua vida.

Virei aqui toda noite

Para sua alma não ficar abatida”

 

E, segundo me disseram,

Eles continuam a se ver

Ela aparece todos os dias

Sempre ao anoitecer

Conversam e contam histórias

O que lhes dá muito prazer.


Se não acreditares nessa história

Que lhe contei de boa fé

Eu posso até lhe dizer

A fonte delas qual é:

Quem me contou tudo isso

Foi um velho caboré.

 

E peço perdão ao leitor,

Pelo poema tão alongado.

Termino as últimas estrofes,

De escrever, já muito cansado.

Espero que você que leu,

Dos meus versos tenha gostado.

 

 

Johnathan Trindade. Brejinho, março de 2024.

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